terça-feira, 31 de outubro de 2017

Centésima-sexagésima-nona noite – O Mundo seremos nós

E não restará mais ninguém nesse mundo senão nós dois [minha quase solitária Tássia, e o mundo será o planeta, a proverbial ilha deserta ou esse quarto. E nesse mundo [que seremos nós e que será nosso] não existirá a palavra decência [em nenhum dicionário, e aliás os dicionários também não existirão].

Assim como seus sinônimos pureza, virgindade, castidade, respeito e pudor – todos serão empacotados e atirados em algum armário poeirento do qual ninguém se lembrará da chave. E seremos animais [minha mais que felina Tássia] – ou não o seremos – bichos não amam direito, nem fisicamente – querem só a eternidade da sua espécie. E nós [minha e/tenra Tássia] queremos a indecência eterna – a mesma indecência que não existirá, pois tudo será como é. E trocaremos de posição, e voltaremos à anterior, e inexistirá qualquer pedaço de nós dois [corpos ou almas, qual a diferença?] que deixe de ser explorado.

Não descansaremos – tomaremos alguns momentos [importa seu tamanho? Segundos, sécilos?] para acumular mais [como a represa antes de romper de tanta água] e voltaremos ao que nunca deixamos de fazer.

E o mundo não existirá, minha cara Tássia – ou existirá, e seremos nós, e o inexistir da palavra decência.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Centésima-sexagésima-oitava noite – O Filósofo encontra o Anjo

O Diabo visitou George Frederico Guilherme na calçada próxima à janela do quarto de sua irmã a 25 de março talvez em 1785 ou 1786 [esse dia, aparentemente inexpressivo, marca nove meses para o nascimento de Cristo, e tal (possível) coincidência não deixou de ter seus intérpretes]. E o visitou em forma de mulher [na verdade de uma jovem, para combinar com a idade dele – então mal saído da adolescência]. Mulher bela [óbvio – o Inimigo é mau mas não burro].

O garoto [voltava da biblioteca] deixou a pilha de livros de gramática [o futuro Inimigo do gênero humano (segundo críticos conservadores) ainda não pensava em dialética, o Poder ou Napoleão (que seriam suas três obsessões futuras)]. A garota [na verdade o Diabo] inventou qualquer nome [Liz ou Helga, ninguém soube direito] e o chamou a sentar-se ao jardim [era noite em Stuttgart].

George pode ter pensado em rasgar-lhe o sutiã, beijar-lhe um bico enquanto acariciava o outro e em fazê-la mulher ali mesmo. Pode ter, embora [segundo alguns, que não adiantam uma razão precisa] pouco provável. Igualmente pouco provável era que tenha discutido sobre a sua ciência da história [ele ainda não a tinha].

O idílio [dizem] encerrou-o sua irmã, que acordara, e o puxou para dentro. E que era ciumenta dele.

De qualquer forma [diz quem o detesta] a garota não era o Diabo. Era um anjo. Diabo foi quem fez com que George Frederico Guilherme Hegel tenha desistido do Amor para fazer filosofia e plantar Revoluções.

sábado, 28 de outubro de 2017

Centésima-sexagésima-sétima noite – Os Amores da Falsa Marlene

Cada dia sem você é solitário e triste estreou em um cinema na rua Wichmanstrasse [não dos melhores da velha Berlim] no dia primeiro de janeiro de 1919 e dificilmente se poderia imaginar pior timing e pior local.

Aparentemente tratava-se de estreia adequadíssima. Jeder Tag ohne dich ist einsam und leer [sendo este o título original] até pelo nome parecia rimar com os tempos – a guerra perdida, a inflação a mostrar os dentes. O filme [no entanto] ao longo de seus poucos sessenta e dois minutos nada tinha da melancolia do seu nome  dos tempos.

O filme se inspira [ou plagia mesmo] o Retrato de Dorian Grey, e conga a história de Lenny, bibliotecária da Escola Média de da cidade de Braunschweig que pintara um retrato de si mesma no dia em que decidira se manter eternamente pura e dedicar sua vida ao pó dos livros. Inevitavelmente o filme se centra não na vida de Lenny mas do seu quadro, a mostrar os amores da jovem mulher, amores dois, a quatro, a um, a uma, de todas as imagináveis maneiras [as cenas da vida de bibliotecária compreensivelmente não atraíram tanto interesse]. Desnecessário dizer que o filme foi censurado antes de três dias.

Uma fantasiosa versão afirma que Lenny era uma alusão a uma jovem Marlene Dietrich – que seria a atriz do filme. O que explicaria o sumiço das fitas, pois ela [depois de célebre] as terá mandado comprar todas. A essa explicação se contrapõe outra, de que o filme era bobo mesmo e por isso ninguém se deu ao trabalho de preservá-lo.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Centésima-sexagésima-sexta noite – Eva, Buenos Aires à meia luz

E a voz de Carlos Gardel o abandonou pela uma hora e trinta da manhã de 13 de março de 1920 no palco do Café Belgrano, na esquina da Florida com Nove de Julho, e ninguém sabe quem anotou os detalhes com tanta precisão [talvez algum bacana que trocasse o dia pela noite e viciado em apostas de boxe no Luna Park]. Carlos cantava o terceiro tango da noite, uma versão adulterada e letrada de La Cumparsita e a nota Fá Maior se recusou a sair.

A plateia não o vaiou [não porque não merecesse mas por puro constrangimento] o que tornou o silêncio ainda mais pesado. Saiu à rua decidido a se tornar contador ou comerciante de peixe.

Foi então que ela lhe pediu um cigarro. A borda de seu vestido tinha plumas, usava cabelo curto e uma piteira [afinal era Buenos Aires, de madrugada, nos anos 20]. Ele lhe perguntou seu nome, ela disse que escolhesse um – e Carlos a denominou Eva, depois Evita – nada a ver com a futura ídola de três décadas depois mas a coincidência não deixa de ter seus especuladores.

Evita levou Carlos à calle Corrientes, 348, segundo piso. Ela tocou um tango na vitrola e tirou o arranjo do cabelo. Foi a primeira coisa que ela tirou, das muitas, e ao final restou, diante de Carlos, apenas Evita e seu delicado perfume de rosas, talvez um gelatti.

Anos depois Gardel cantaria aquele momento à meia-luz. A única diferença para a letra da canção é que havia mesmo um gato. Que dormiu por todo o momento, felizmente.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Centésima-sexagésima-quinta noite – Pegar-te-ei de quatro, de oito, de quanto mais

Seremos livres [minha cara Tássia] como talvez nunca o sejamos [livres como quem não existe]. Seremos gigolô e protegida em alguma casa de proto-jazz em Nova Orleans em 1919, ou, hoje mesmo, casalzinho tímido de colegas universitários – tímido só até agora.

Melhor – seremos livres e tomaremos carona a rolar pela Europa – não a Torre Eiffel e outras obviedades. Pararemos em Budapeste ou na capital da Letônia e a falta de dinheiro [ou a vontade de aparecer, ou ambos] nos fará oferecer nossos serviços a uma boate underground de náuseas – dessas típicas de Hollywood, sem classe mas com todo mundo bonito e com o dono a falar inglês perfeito.

E faremos [minha cara Tássia, duas da manhã e plateia lotada de caras e louras] o nosso espetáculo, sem temores de quem o suba ao Youtube [não existiremos, lembra? E quem não existe não tem reputações a defender].

No palco [nossas roupas lá no chão após strip a dois] eu te apanharei de quatro, de oito, de onze, de quanto mais, de todas as formas [minha versatilíssima Tássia] nenhuma delas decente, e te dobrarei em todas as curvas de que teu corpo curvilíneo é capaz. Ajoelhar-me-ei na tua frente em confissão, enquanto tu em pé de olhos fechados mirarás o teto de luz escarlate e enterrarás tuas mãos em meus cabelos em sinal de absolvição.

E ao final nos curvaremos aos aplausos e recolheremos os jeans e sairemos dando beijinhos. Para pegar carona no dia seguinte a outra cidade na qual seremos igualmente livres, minha cara Tássia.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Centésima-sexagésima-quarta noite – As Diabinhas de Lutero

Luther und die kleine Teufelchen [que pode ser traduzido de maneira razoavelmente precisa porém não menos ridícula como Lutero e as diabinhas] previsivelmente não foi o mais brilhante de todos os panfletos que a Santa Igreja [e seus bajuladores] lançaram contra o monge alemão nos dias que se seguram à pregação de suas 95 Teses contra a Venda de Indulgências em uma Igreja de Wittenberg a 31 de outubro de 1517. Tratou-se porém [e compreensivelmente] de um dos mais populares, até que o moralismo o relegou aos Infernos das bibliotecas [sendo eles as estantes especiais na qual se estocavam os livros indecentes], de onde o grande escritor Apollinaire [também pesquisador do Inferno da Biblioteca de Paris] o resgatou quatro séculos depois.

O panfleto [que tanto tem se sensual quanto de ridículo] retrata [sem novidade nenhuma] que Lutero fora desencaminhado pelo Inimigo para fazer o mal. Este porém [e também sem se esmerar na originalidade] enviou anjinhas caídas [ele próprio sendo um anjo caído, recorde-se] para desencaminhar o até então bom católico do caminho reto e acertado.

A parte cômica do livro [que deveria ser a parte erótica] mostra as garotas a cercar o monge e a trabalhar avidamente com suas bocas e mãos. Isso, a se somar ao fato de que o gordinho Lutero nunca fora exatamente um modelo de beleza, cercou a obra de grande peculiaridade.

E também fez com que Apollinaire a classificasse como livro cômico.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Centésima-sexagésima-terceira noite – Antígona, a não-erótica

Na Tragédia grega ninguém faz nada – ou, nada de mais êxtase. Há sangue, punhaladas, olhos arrancados, esfinges que falam (e pior, falam frases idiotas que o dramaturgo e o expectador insistem em levar a sério) mas nada mais. Nada mais de suspiros, palavras in decentes e olhos revirados – que Ésquilo parecia desconhecer que existiam, porém sem as quais não existiria a própria Tragédia, pois sem gente não há Tragédia, e sem essas coisas não haveria gente.

Nem Eurípedes nem Sófocles nem ninguém pensou nas aventuras possivelmente mais livres de uma Jocasta madura porém com o tempero da experiência. Lisístatra talvez – ela dificilmente seria aceita em um convento católico – o que se resume a questão meramente teórica, pois na época inexistiam os conventos católicos. E além disso, Lisístatra é estrela de comédia – o que foge do escopo.

O grande desafio [que nem mesmo a trinca de dramaturgos gregos aceitou encarar] seria transformar uma adolescente da cidade de Tebas filha da melhor família em uma deusa do prazer. Em outras palavras, fazer de Antígona um personagem erótico.

Ou ao menos fazer com que a garota largasse essa sua obsessão com cemitérios, enterros, pais cegos e irmãos mortos e visse que a vida existe e que pode dar muito prazer a dois.

De Ésquilo só sobraram sete tragédias, dos outros não muito mais. Imagine-se uma em que um guapo mancebo levaria Antígona e conseguiria lhe tirar a túnica. Algo pouco provável pois a cara de tragédia grega da moça quebraria o clima.