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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Centésima-quadragésima-quarta noite – Vejo [minha cara] a palavra clara

Vejo [minha cara] a palavra clara,
a palavra que continua com ce, principia com bo e termina com ta -
a palavra boceta.
[A tua].
E mais que a palavra [clara e cara] vejo a própria
que começa na junção das coxas,
cresce pela curva das ancas,
encontra-se na floresta fechada e negra
e termina a espiar de longe a depressão do umbigo.
Quero [minha clara] a palavra cara,
a palavra multimetaforizada,
a palavra espada,
mastro, torre de Pisa em pé,
ou qualquer metáfora para o simples monossílabo pau.
[o meu]
Imagino [cara e minha e clara]
a cena escura [ou quase]
meu pau a afastar os lábios da tua boceta
sem deslizar de filme porn nem gemidos de virgem.
No tamanho exato, caminho certo, concreto passo.
Almejo [minha e teu e nua, cara clara]
nós dois
[pau e boceta]
bem pequenininhos [depois]
um aninhado no outro
a sonhar com anjos
que também andam pelo Céu sem roupa.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Centésima-vigésima-terceira noite – Amemo-nos como o poeta

Ama-me [Gisele Maria] à maneira do poeta cummings: a ação pensada previamente, a saia com centimetragem medida e pequena, jogada para cima em movimento elíptico que revelaria a tanga de puro vermelho a se afundar entre as doces bochechas negras. 

E eu te amarei [Gisele Maria] do jeito do poeta cummings – preciso, metálico. Cada estocada visará o âmago da tua alma [Gisele Maria] – cada estocada sentida, as úmidas paredes do teu interior acariciadas polegada após polegada pelo instrumento certo – o qual terás a impressão [Gisele Maria] de te atravessar por inteiro, ventre até a boca, sem qualquer conhecimento da palavra compaixão.

E Nós nos amaremos [Gisele Maria] como sonhou o poeta cummings, ou melhor [e como ele também sonhou] não nos amaremos. [A Expressão fazer amor para nós não passará de metáfora para virgens]. Nós nos interpenetraremos, no mais preciso sentido de termo – teus bicos já afundados em minha boca, tuas coxas a amassar minhas delicadas e másculas esferas. [Pois para nós (Gisele Maria) cada contração no auge vale mais que duzentos e noventa e nove versos apaixonados].

E tu sentirás o meu gosto [Gisele Maria] e eu sentirei o teu – e como o poeta cummings, pouco falaremos, muito faremos e no final pintarei uma aquarela em cor branca em tuas costas morenas [Gisele Maria], à maneira do poeta cummings, pois com ele aprendemos [eu e tu] que poesia e pintura caminham juntas, e ambas valem mais que qualquer declaração de amor.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Centésima-décima-sétima noite – Serei sua

Serei sua prostituta, Antônio Marlos – e você será meu cliente - a profissional, garota de programa, cacho, gata de praia, nada-a-mais. Pendurarei brincos enormes – aquelas argolas de ouro falso que roçam no ombro das atrizes de terceira nos pornôs de quarta categoria. Percorrerei sex-shops de fundo de galeria e lojas de lingerie em eterna liquidação na Saara e encontrarei as tanguinhas menores, estampa-de-oncinha, as mais vulgares, sutiãs-com-furinho, de tecido tão fraco de rasgar a qualquer puxada.

Tatuarei dragões, gatinhos ou corações flechados, Antônio Marlos, e os desenhos sequer serão originais. Pintarei o cabelo de dourado-imitação-radical no salão mais barateiro, e uma nota de três dólares em forma de estrela parecerá mais real que essa cor.

Mascarei chicletes, Antônio Marlos, e farei pop com uma bola na sua cara, e pintarei os lábios de um vermelho a enxergar do outro lado do Atlântico. Pegarei bronze artificial e clarearei os pelos das pernas e apertarei tudo em um top e uma microssaia tão justas, Antônio Marlos, que cada saliência da pele aparecerá muito mais do que ao natural.

Falarei palavrões, Antônio Marlos, e bem perto de você para que possa sentir meu Chanel 5 falsificado. Cobrarei um preço não muito alto e ainda aceitarei na hora sua contraoferta dois terços mais baixa. Levá-lo-ei a um motel de esquina e começarei conversa repleta de safadezas, até que você se impaciente e tome posse de sua mercadoria, que serei eu.

Serei sua prostituta, Antônio Marlos, e você será meu cliente.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Centésima-oitava noite - Primordial Transa Nórdica

Diz certa lenda nórdica [e as lendas são sempre tolas] que no começo nada havia [grande novidade]. Ou melhor, havia [o que também não constitui notícia] certo deus informe que [talvez para minorar o tom semi-monstruoso de sua não-forma] resolveu partir-se em dois.

Partiu-se em inevitáveis princípios Feminino e Masculino, e tais princípios se materializaram em uma mulher e um homem, com tranças louras e olhos azuis [afinal eram nórdicos] – a quem a posteridade deu nomes plenos de consoantes mas outra posteridade [mais prática] denominou Katja e Hans.

Decidiram [não sem certa germânica frieza] que um mundo de dois não possuiria grandes gozos [nem tragédias] e decidiram povoá-lo. E o fizeram, em meio a uma floresta negra e brumosa [como sempre acontece com as narrativas de florestas do Norte] e aqui termina a parte adequada para menores. Naquele momento principiam as histórias de umidades e endurecimentos, e entradas pela frente e por trás e sessões duplas e triplas – além de suor e de cabelos de ouro a balançar.


Tal história [como acontece com essas histórias] se passou há muito, e a existência de gente no mundo é sinal inequívoco de seu sucesso. Arqueólogos da Universidade Humboldt [não me perguntem como] apuraram que o lugar dessa transa primordial se deu onde hoje é Berlim, perto do cruzamento de ruas em absoluto banais chamadas Keithstrasse e Wichmannstrasse, perto do quartel da Polizei e de um supermercado Netto, onde hoje há um hotel cor de rosa, no qual me hospedei e tomei café com bolinhos.

domingo, 27 de março de 2016

Octogésima-sétima noite – Adorarei o que tens entre as coxas

Novo fiel, adorarei o que tens entre as coxas. Adorarei a boceta, racha, periquita, fenda, buraco, flor, raio-que, o-nome-é-de-somenos.

Novo sacrílego, seguirei rigorosa liturgia, com a reverência daqueles que creem. Muitos creem em muitos – deuses, entidades, promessas, escritos e ditados misteriosos.

Novo herege, eu creio em tua boceta. Quando estou diante dela, esqueço a vida presente, junto com a vida passada e a vida eterna.

Novo liturgista, obedecerei a rigorosa precedência, com a seriedade dos fiéis e com a leveza de coração dos que se sentem perdoados e amparados. Tu te assentarás em majestoso trono. Eu, humilde, pôr-me-ei de joelhos, como se deve em ocasiões de contrição. Suplicarei, quebrantado porém esperançoso, que a este humilde adepto seja concedida a suprema graça.

Novo remido, a graça me será concedida – tu levantarás o traje ritual [bermuda jeans ou vestido negro longo, tanto faz] e um último obstáculo apresentar-se-á antes do Paraíso – a tua calcinha-tanga rosa ou vermelha, os delicados pelos negros a sobrar. Suplicarei uma segunda vez [o caminho, bem o sei, é árduo e estreito].

Novo orante, serei arrebatado por tuas mãos, e minha cabeça será puxada para muito próximo da felicidade que não cessa – minha língua colará nela, e pronunciarei [dificultado por teus pelos] soneto que fale de amor e seios, e a cada verso serei recompensado por teus gritos.

Novo Perdoado, considerar-me-ei [depois da cerimônia] servo grato e indigno, e como o caminho exige eterna vigilância, suplicarei por mais e mais oportunidades de adoração.

sábado, 26 de março de 2016

Octogésima-sexta noite – Por ti vulgar serei

Por ti vulgar serei [e mais ainda] reescreverei o sentido da palavra vulgaridade. Inexistirão as sex-shops que não visitarei, ou melhor, elas existirão – as mais classudas, as mais família, as mais recomendadas a moças de boa formação – elas para mim serão inexistência.

Por ti comprarei tangas – as menores, e não só as menores – até sua cor será reles, desprovida de qualquer coisa que se possa parecer minimamente com classe. Violetas-chocante, amarelos-escândalo, vermelho-ver-a-quilômetros, rosa-a-parecer-profissional. E nenhuma será inteira – os tecidos chapados serão por mim eleitos coisa-de-virgem: serão elas transparentes, furadinhas, com aberturas no lugar exato – e exaltadas em propagandas ridículas como Naqueles momentos tudo ficará mais fácil. São essas que encherão meu carrinho e guarda-roupa.

Por ti desfilarei por aí com indumentária do tipo Não sou um anjo e esse cara ao meu lado me come e daí. No calçadão os tops começarão muito em cima no peito e as bermudas muito embaixo na cintura – ambas tão apertadas que haverá debates sobre se fazem parte da minha pele. Na areia da praia farei alternância – ou a peça de cima será microscópica ou a de baixo provocará discussões acerca de sua real existência. Estenderei a toalha de praia de cócoras e meu maiô fio-dental atrairá olhares de homens até a Groenlândia. Ou então o sutiã disputará com meus bicos um campeonato de extensão, com vitória nem sempre assegurada.

Por ti serei vulgar, e vulgarmente feliz serei.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Septuagésima-sétima noite – Masturbemo-nos, Carla Regina

Masturbemo-nos, Carla Regina [e o amor não existe]. Existimos nós [lado a lado] e [mais que nós] existem nossas mãos - a trabalhar intensas e rápidas cada um a si e por si.

Solitários a dois [talvez] sozinhos nunca. Roço teu braço no meu – o suor a se tocar e trocar doce, teus olhos entreabertos [o branco dos teus olhos, Carla Regina, a semelhar aos meus].

Tu sonhas comigo, ou com outro, ou com outra, ou com multidão – mas essencialmente consigo mesma, Carla Regina, pois [como diriam os sábios, se sábios realmente o fossem] quem se ama se masturba, Carla Regina – e mesmo quem não se ama deveria começar a fazê-lo.

Nossas pernas [a minha e a tua, Carla Regina] se entrelaçam, a se procurar e encontrar por acaso [cada um a imaginar sem conseguir o que imagina o outro] e assim passam os tempos e tempestades. Roçam nossos pelos e as respirações se promiscuem. Tornamo-nos indecentes [Carla Regina] não pelo que fazemos mas pela mistura ao fazê-lo – cada um a se concentrar em si derrete as barreiras e não consegue distinguir a fronteira para o outro.

Solitários [naves espaciais em universos paralelos] nossas mãos se estendem, cada uma em busca [tanto comovente quanto inglória] do outro. Tua mão sente o movimento forte da minha mão – a tentar sentir sem interferir – e a minha mão faz o mesmo na tua. Tocam [nossas mãos] cada ponto exato [cada sensação do outro].

Vivamos, Carla Regina, e masturbemo-nos [e o amor não existe].

segunda-feira, 7 de março de 2016

Sexagésima-sétima noite – Entre as coxas de Cláudia Teresa

As coxas de Cláudia Teresa ao se abrirem revelam novos mundos e mares – que eu [novo Colombo ou Cabral] percorro armado em caravela [velas ao vento]. Cláudia Teresa ondula em doces marolas [a pele cor de jambo a roçar na minha] ou feroz tempestade rogue waves – tempestades perfeitas que tenho dificuldade [e que nem quero] dominar.

As coxas de Cláudia Teresa [lutadora de MMA sem sangue, doping ou esquema de imprensa] me trancam e travam – imobilizam-me e imobilizam-na [nós dois a revirar os olhos em desarmonia] até que a explosão de um invariavelmente detone o outro.

As coxas de Cláudia Teresa [doces mapas de penugem alourada] possuem caminhos [compostos de fronteiras entre o que a pequeninha tanga esconde do sol bronzeador e o que não protege] – caminhos esses que a ponta de minha língua percorre marcando limites como explorador antigo, demorando-me em cada ponto decisivo – enquanto a terra freme].

As coxas de Cláudia Teresa [ao se abrirem] permitem um explorar a um só momento escorreito e desafiante – desfiladeiro cânion que se estreita e amplia, sem nenhuma lógica a não ser a da trilha musical dos gritos.

As coxas de Cláudia Teresa [presente perpétuo] não permitem perguntas bobas de quantos descobridores já estiveram nas mesmas paragens antes. Pois descobridores não foram – descobridor de novos caminhos sou só eu [Cláudia Teresa] e apenas entre suas coxas.